Terapia DBT: o que é, para quem é indicada e como ela ajuda na regulação das emoções
Psicólogo, doutor em Psiquiatria e Psicologia Médica (UNIFESP)
CRP-SP: 06/205331
Neste texto, o psicólogo Luccas Coutinho explica o que é a terapia DBT (Terapia Comportamental Dialética), para quem ela é indicada, quais habilidades são aprendidas e como ela ajuda na regulação das emoções.
Resposta rápida
A terapia DBT (Terapia Comportamental Dialética) é uma psicoterapia estruturada, criada pela psicóloga Marsha Linehan, que ensina habilidades de mindfulness, tolerância ao mal-estar, regulação emocional e efetividade interpessoal. Ela é indicada principalmente para desregulação emocional, impulsividade, autolesão e transtorno da personalidade borderline, sempre a partir de uma avaliação clínica individual.
Imagine duas pessoas vivendo exatamente o mesmo problema.
As duas recebem uma mensagem que interpretam como rejeição.
A primeira fica triste, pensa no assunto durante algum tempo e decide conversar no dia seguinte.
A segunda sente a emoção crescer em poucos minutos. Manda várias mensagens, bloqueia a outra pessoa, se arrepende, desbloqueia, tenta reparar o que aconteceu e termina a noite se perguntando:
“Por que eu fiz tudo isso se eu sabia que ia me arrepender?”
Essa diferença ajuda a entender um dos problemas centrais trabalhados pela Terapia Comportamental Dialética, ou DBT.
Nem sempre o problema é não compreender o que sentimos.
Às vezes, o problema é não conseguir encontrar outra resposta enquanto estamos sentindo.
O que é a terapia DBT?
A DBT, sigla de Dialectical Behavior Therapy, é uma forma estruturada de psicoterapia desenvolvida pela psicóloga norte-americana Marsha Linehan.
Em português, ela é conhecida como Terapia Comportamental Dialética.
A abordagem foi inicialmente desenvolvida para pessoas com comportamento suicida recorrente e transtorno da personalidade borderline, uma população para a qual tratamentos convencionais apresentavam grandes desafios.
Com o tempo, a DBT tornou-se uma das psicoterapias estruturadas mais estudadas para problemas relacionados à desregulação emocional, impulsividade, automutilação e dificuldades interpessoais.
Uma revisão sistemática publicada em 2024 identificou 18 ensaios clínicos randomizados envolvendo DBT em pessoas com transtorno da personalidade borderline, com resultados favoráveis em diferentes desfechos, embora a qualidade e as características dos estudos variem.
A American Psychiatric Association atualmente recomenda que pessoas com transtorno da personalidade borderline recebam uma psicoterapia estruturada, sustentada pela literatura e direcionada às características centrais do quadro.
Por que a terapia é chamada de “dialética”?
A palavra pode parecer complicada, mas a ideia é bastante humana.
A DBT trabalha constantemente com duas forças que parecem opostas:
aceitação e mudança.
É possível reconhecer:
“Faz sentido que você tenha aprendido a reagir dessa maneira considerando tudo o que viveu.”
E, ao mesmo tempo:
“Essa maneira de reagir está produzindo consequências ruins e precisa mudar.”
As duas frases podem ser verdadeiras.
Esse é um dos princípios centrais da DBT.
Aceitar não significa desistir de mudar.
Mudar não exige tratar a própria história como se ela não tivesse importância.
Pense em alguém perdido em uma estrada.
Para chegar a outro lugar, primeiro é necessário reconhecer onde está.
Aceitar a posição atual não significa querer permanecer ali.
Significa parar de discutir com o mapa para finalmente conseguir escolher uma direção.
Para quem a terapia DBT foi criada e para quem é indicada?
Historicamente, a DBT foi desenvolvida para pessoas com sofrimento psicológico intenso, comportamento suicida e posteriormente se consolidou especialmente no tratamento do transtorno da personalidade borderline.
O transtorno borderline pode envolver instabilidade importante nas relações, autoimagem e humor, impulsividade, medo de abandono, comportamentos autolesivos e crises emocionais intensas.
Mas uma distinção é importante:
DBT não é sinônimo de terapia para borderline.
Com o desenvolvimento da abordagem, seus princípios e seu treinamento de habilidades passaram a ser estudados em outros contextos clínicos.
Existem, por exemplo, pesquisas avaliando habilidades de DBT em pessoas com dificuldades de regulação emocional associadas a quadros de ansiedade e depressão. Um ensaio clínico piloto encontrou redução de dificuldades de regulação emocional em adultos ansiosos ou deprimidos com importante desregulação emocional, embora esses resultados não signifiquem que a DBT seja automaticamente o tratamento indicado para qualquer pessoa com ansiedade ou depressão.
Também existem adaptações específicas da abordagem.
Nas diretrizes britânicas de manejo da automutilação, por exemplo, a DBT adaptada para adolescentes pode ser considerada em crianças e adolescentes com desregulação emocional importante e episódios frequentes de autoagressão.
Portanto, a pergunta clínica mais útil não é apenas:
“Qual é o diagnóstico?”
Mas também:
“Quais comportamentos estão causando sofrimento e quais habilidades essa pessoa precisa desenvolver?”
O que é desregulação emocional?
Desregulação emocional é a dificuldade persistente de responder às emoções de uma maneira compatível com os objetivos e com a situação.
Isso pode aparecer de diferentes formas.
A emoção sobe muito rapidamente.
Demora muito para diminuir.
Pequenos acontecimentos provocam respostas extremamente intensas.
Ou a pessoa percebe o que está sentindo, mas não consegue impedir comportamentos impulsivos durante aquele período.
Não significa fraqueza.
Também não significa que exista necessariamente um transtorno psiquiátrico específico.
A regulação emocional depende de uma interação complexa entre vulnerabilidades individuais, aprendizado, ambiente, história de vida e condições do momento.
A DBT procura entender esse sistema e, principalmente, aumentar o número de respostas disponíveis dentro dele.
O que se aprende na DBT? As 4 habilidades da terapia
Uma das características que diferenciam a DBT de abordagens exclusivamente baseadas em conversa é a ênfase explícita no aprendizado de habilidades.
Elas são organizadas em quatro grandes áreas.
1. Mindfulness
Mindfulness ajuda a pessoa a perceber o que está acontecendo no momento presente sem reagir automaticamente a tudo que surge na mente.
Você pode pensar:
“Todo mundo vai me abandonar.”
Mindfulness não exige provar naquele momento se o pensamento é verdadeiro ou falso.
O primeiro passo é perceber:
“Minha mente está produzindo o pensamento de que todos vão me abandonar.”
A diferença parece pequena.
Mas muda a posição da pessoa diante do próprio pensamento.
2. Tolerância ao mal-estar
Alguns problemas precisam ser resolvidos.
Outros precisam primeiro ser suportados.
A tolerância ao mal-estar trabalha justamente os momentos em que agir impulsivamente provavelmente pioraria a situação.
O objetivo é conseguir atravessar o pico de uma crise sem recorrer a comportamentos destrutivos.
3. Regulação emocional
Aqui são trabalhadas habilidades para identificar emoções, compreender suas funções, reduzir vulnerabilidades emocionais e modificar determinadas respostas quando elas não estão funcionando.
Não se trata de “controlar tudo”.
Trata-se de ter mais liberdade para escolher o que fazer.
4. Efetividade interpessoal
Relacionamentos exigem uma habilidade difícil:
equilibrar aquilo que eu quero, aquilo que a relação precisa e aquilo que preserva meu próprio respeito.
A DBT trabalha formas de pedir, negar, negociar, estabelecer limites e lidar com conflitos.
Como funciona uma DBT completa?
A DBT padrão é mais do que uma sessão semanal de psicoterapia.
O modelo completo possui quatro componentes principais: terapia individual, treinamento de habilidades em grupo, orientação para aplicação das habilidades entre sessões e equipe de consulta dos terapeutas.
Cada parte responde a uma necessidade diferente.
Na terapia individual, o trabalho é direcionado aos comportamentos e situações particulares daquela pessoa.
No grupo, são ensinadas habilidades.
Entre sessões, o objetivo do coaching é ajudar a aplicar habilidades na vida real.
E a equipe de profissionais trabalha para manter consistência, competência técnica e adesão ao modelo.
Existem serviços que utilizam apenas alguns componentes ou intervenções inspiradas em DBT.
Elas podem ter valor clínico, mas é importante não chamar qualquer intervenção que utilize habilidades de DBT de DBT completa.
DBT é apenas aprender técnicas?
Não.
Reduzir a DBT a uma coleção de exercícios seria perder parte importante da abordagem.
A terapia utiliza análise funcional do comportamento, estratégias de mudança, validação, resolução de problemas, exposição a situações difíceis, manejo de contingências e uma atenção constante à relação terapêutica.
As habilidades são uma parte muito visível do método.
Mas existe uma lógica clínica por trás delas.
Um comportamento que parece absurdo quando observado de fora frequentemente possui uma função quando compreendemos o contexto em que foi aprendido.
A pergunta da DBT não é apenas:
“Como eliminamos esse comportamento?”
É também:
“O que esse comportamento está fazendo por essa pessoa, e qual alternativa poderia cumprir essa função com menos sofrimento?”
Essa pergunta muda a qualidade do tratamento.
DBT significa aprender a sentir menos?
Não necessariamente.
Em muitos casos, a meta não é diminuir toda emoção intensa.
Algumas emoções intensas são perfeitamente adequadas.
É esperado sentir tristeza diante de uma perda.
É esperado sentir medo diante de uma ameaça.
É esperado sentir raiva diante de determinadas injustiças.
O problema aparece quando a resposta deixa de ajudar a pessoa a lidar com a realidade.
Uma emoção pode ser válida e, ainda assim, exigir uma resposta diferente.
Esse é outro exemplo da lógica dialética:
o que você sente pode fazer sentido e o que você faz com isso ainda pode precisar mudar.
Como saber se a terapia DBT é indicada para mim?
Não existe um teste simples na internet capaz de responder a essa pergunta de maneira responsável.
Uma avaliação clínica precisa considerar sintomas, diagnósticos, comportamentos de risco, histórico de tratamentos, condições associadas, objetivos e disponibilidade para o tipo de trabalho proposto.
DBT pode ser especialmente considerada quando dificuldades de regulação emocional, impulsividade, autolesão ou instabilidade relacional ocupam lugar importante no quadro.
Mas pessoas com sintomas aparentemente semelhantes podem precisar de tratamentos diferentes.
É por isso que uma indicação de psicoterapia é uma decisão clínica, não uma escolha feita apenas a partir da identificação com uma lista de sintomas.
A mudança começa antes da crise
Uma das ideias mais importantes da DBT é também uma das mais simples.
Não é razoável esperar aprender uma habilidade nova no exato momento em que estamos emocionalmente no limite.
É difícil aprender a nadar quando já estamos nos afogando.
As habilidades são praticadas antes.
Em situações menores.
Repetidamente.
Até que estejam mais acessíveis quando realmente forem necessárias.
Talvez seja essa uma das diferenças mais importantes entre compreender uma emoção e construir regulação emocional.
Compreender responde:
“Por que isso acontece comigo?”
Desenvolver habilidades acrescenta outra pergunta:
“Quando isso acontecer novamente, o que eu posso fazer de diferente?”
É nesse segundo território que a DBT trabalha.
Terapia DBT em São Paulo na Clínica Trianon
Na Clínica Trianon, a indicação de psicoterapia parte de uma avaliação individual.
O objetivo não é encaixar pessoas em um método, mas compreender quais são as dificuldades apresentadas, o nível de sofrimento, os riscos envolvidos e quais estratégias terapêuticas podem ser mais adequadas.
Se você quer entender se a Terapia Comportamental Dialética ou o treinamento de habilidades em DBT pode fazer sentido para o seu caso, entre em contato com nossa equipe para uma avaliação.
A psicologia da Clínica Trianon trabalha junto com a psiquiatria, na Av. Paulista, em São Paulo. Conheça o trabalho do psicólogo Luccas Soares Coutinho, especialista em DBT, ACT e TCC.
Terapia DBT e regulação emocional na Clínica Trianon
Avaliação individual com psicólogos e psiquiatras para entender se a DBT ou o treinamento de habilidades faz sentido para o seu caso.
Perguntas frequentes sobre terapia DBT
O que significa DBT?
DBT significa Dialectical Behavior Therapy. Em português, Terapia Comportamental Dialética.
DBT é uma terapia para transtorno borderline?
A DBT foi originalmente desenvolvida para pessoas com comportamento suicida e tornou-se especialmente estudada no transtorno da personalidade borderline. Hoje existem adaptações e estudos em outras populações, sobretudo quando há dificuldade relevante de regulação emocional.
Quais são as habilidades da DBT?
Mindfulness, tolerância ao mal-estar, regulação emocional e efetividade interpessoal.
DBT tem terapia individual?
Na DBT completa, sim. A psicoterapia individual ocorre em conjunto com outros componentes do programa.
DBT serve para ansiedade?
Existem pesquisas com treinamento de habilidades em pessoas com ansiedade e desregulação emocional, mas isso não significa que DBT seja automaticamente o tratamento de primeira escolha para toda ansiedade. A indicação depende da avaliação clínica.
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Referências
- LINEHAN, Marsha M. Treinamento de habilidades em DBT: manual de terapia comportamental dialética para o terapeuta. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2018.
- American Psychiatric Association. Practice Guideline for the Treatment of Patients With Borderline Personality Disorder. American Journal of Psychiatry, 2024.
- HERNANDEZ-BUSTAMANTE, M. et al. Efficacy of Dialectical Behavior Therapy in the Treatment of Borderline Personality Disorder: A Systematic Review of Randomized Controlled Trials. 2024.
- Behavioral Research & Therapy Clinics, University of Washington. Dialectical Behavior Therapy.
Texto de Luccas Soares Coutinho, psicólogo clínico (CRP-SP 06/205331), doutor em Psiquiatria e Psicologia Médica pela UNIFESP, especialista em DBT, ACT e TCC, Clínica Trianon.
