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Por que é tão difícil parar de apostar: o que as bets fazem no cérebro

Por que é tão difícil parar de apostar: o que as bets fazem no cérebro

Dr. Daniel Cavalcante

Médico Psiquiatra

CRM-SP: 165836 / RQE: 67756

Dr. Daniel Cavalcante, médico psiquiatra da Clínica Trianon

Neste texto, o psiquiatra Daniel Cavalcante explica por que é tão difícil parar de apostar, o que o vício em bets faz no cérebro e como é o tratamento do transtorno do jogo.

Resposta rápida

Parar de apostar é difícil porque o jogo treina o sistema de recompensa do cérebro. O ganho imprevisível (reforço intermitente), a dopamina liberada na expectativa, o quase-acerto e a vontade de recuperar o prejuízo mantêm a pessoa jogando, mesmo perdendo. O transtorno do jogo é uma dependência reconhecida e tem tratamento, com terapia cognitivo-comportamental como primeira linha.

Homem sentado no sofá à noite olhando o celular com um jogo de cassino online na tela, retrato do vício em apostas
Cada rodada de três segundos é uma repetição a mais do treino do circuito de recompensa.

Depois que o governo anunciou o bloqueio das bets, publiquei um carrossel dizendo que a medida tira o aplicativo do celular, mas não tira o vício de quem já adoeceu. Uma pergunta se repetiu nos comentários e nas mensagens: se o site está bloqueado, por que a pessoa não simplesmente para?

Quem nunca apostou olha de fora e pensa: “é só não fazer”. Mas quem já ficou preso sabe que não funciona assim. E o motivo disso está no cérebro. Vale entender, porque muda a forma como a gente enxerga quem está passando por isso, e muda também a forma como a própria pessoa se enxerga.

O que vou escrever aqui é a explicação que costumo dar no consultório. Não é a resposta completa, a neurobiologia do jogo é mais complexa do que cabe num texto de blog, mas é a parte que ajuda de verdade a entender o problema.

Vício em apostas não é fraqueza de caráter

A primeira coisa que preciso dizer, porque é o que mais escuto de famílias: não é falta de vergonha na cara. A pessoa que perdeu o salário inteiro no tigrinho, prometeu que nunca mais, e na semana seguinte estava lá de novo, não está mentindo quando promete. Ela acredita na promessa. O problema é que a promessa é feita por uma parte do cérebro, e a aposta é disparada por outra.

A resposta curta é esta: o jogo foi desenhado para conversar com um sistema muito antigo do nosso cérebro, o sistema que aprende com recompensa. Esse sistema existe para garantir que a gente repita o que deu certo, comer, beber, se proteger, e ele funciona por baixo da razão, sem pedir licença. E ele aprende muito rápido.

Nos manuais de psiquiatria, o transtorno do jogo está classificado no mesmo capítulo do álcool e das drogas. Isso não é força de expressão. Foi uma decisão tomada em 2013, na quinta edição do DSM, justamente porque as evidências mostravam que o comportamento de apostar ativa os mesmos circuitos e produz os mesmos padrões de perda de controle que uma substância.

O truque da recompensa imprevisível (reforço intermitente)

Imagine que você ganhasse toda vez que apostasse. Parece ótimo, mas o cérebro se acostumaria em pouco tempo e perderia o interesse, do mesmo jeito que a gente para de reparar num barulho constante. Agora imagine que você nunca ganhasse. Você desistiria em poucos dias.

O que prende de verdade é ganhar de vez em quando, sem saber quando. Isso tem nome, reforço intermitente, e é o padrão de aprendizado mais resistente que a psicologia conhece. Foi descrito na década de 1950 por Skinner e Ferster, em experimentos com ratos e pombos. Um pombo que recebe comida a cada bicada aprende, mas também desaprende rápido quando a comida some. Um pombo que recebe comida de forma imprevisível continua bicando por muito tempo depois de a comida acabar, milhares de vezes.

As bets fazem isso com gente, e em escala industrial. Cada rodada é uma bicada. O ganho ocasional é a comida. E o algoritmo do jogo controla exatamente a frequência com que ela aparece.

A dopamina não é o prazer, é a expectativa

Muita gente acha que a dopamina é liberada quando a pessoa ganha, como se fosse uma recompensa química pela vitória. Mas o que os estudos com neurônios dopaminérgicos mostraram, principalmente a partir do trabalho de Wolfram Schultz, é outra coisa. O pico de dopamina acontece antes, na espera pelo resultado. É um sinal de previsão, não de prazer.

Na prática: o botão apertado, a bolinha girando, o aviãozinho subindo. Esse intervalo de dois ou três segundos entre apostar e saber é o momento em que o cérebro está mais ativado. O ganho em si importa menos do que parece.

E tem um detalhe cruel nisso. A dopamina responde ao erro de previsão, ou seja, dispara mais forte quando o resultado é melhor do que o esperado. Num jogo em que a pessoa perde quase sempre, qualquer ganho é uma surpresa, e surpresa é exatamente o que esse sistema mais valoriza. Perder muito não enfraquece o vício. Em certo sentido, reforça.

É por isso que a pessoa continua apostando mesmo perdendo quase sempre. O cérebro fica viciado no “vai que”, e o “vai que” acontece a cada rodada, independentemente do resultado.

O quase-acerto: por que “quase ganhar” prende

Quando saem dois símbolos iguais e o terceiro passa raspando, o cérebro registra aquilo quase como uma vitória. Não como uma derrota, que foi o que aconteceu de fato. A pessoa perdeu o dinheiro daquela rodada exatamente como perderia se saíssem três símbolos diferentes, mas a sensação é de “quase”, de “está chegando”.

Isso foi estudado com ressonância magnética funcional. Luke Clark e colegas, em Cambridge, mostraram em 2009 que o quase-acerto ativa as mesmas regiões de recompensa que o ganho real, o estriado ventral e a ínsula, e ainda aumenta a vontade de continuar jogando. Em jogadores com transtorno do jogo, essa resposta é ainda mais intensa.

E os jogos sabem disso. Em caça-níqueis físicos, está bem documentado que o quase-acerto é programado para aparecer com mais frequência do que aconteceria por acaso, a ponto de alguns países regularem isso. Para os jogos online que circulam no Brasil não existe dado publicado, porque ninguém tem acesso ao algoritmo, mas não há motivo para imaginar que sejam mais generosos.

Correr atrás do prejuízo

Perdeu, e a cabeça diz: “só mais uma para recuperar”. Esse é o sintoma mais típico do transtorno do jogo, tanto que está entre os critérios diagnósticos, e é aí que a dívida vira uma bola de neve. A pessoa não está mais apostando para ganhar. Está apostando para deixar de ter perdido.

Faz sentido para o cérebro, por mais estranho que pareça. A dor da perda é maior do que a alegria da vitória de mesmo tamanho, isso é um achado clássico da economia comportamental, e vale para todo mundo, não só para quem aposta. Então, depois de uma perda grande, apostar de novo vira a única forma disponível de fazer a dor passar. Parar significa aceitar a perda como definitiva, e o cérebro resiste a isso com toda a força.

Só que a matemática do jogo não deixa a recuperação acontecer. Todo jogo de cassino tem uma vantagem da casa embutida. Quanto mais a pessoa joga, mais perto ela chega da média, e a média é perder. Correr atrás do prejuízo é, literalmente, a estratégia que garante o prejuízo.

Por que o tigrinho vicia mais que a aposta no futebol

Na aposta esportiva você espera o jogo acabar. São noventa minutos entre apostar e saber o resultado, e nesse meio tempo a vida continua. Uma rodada de cassino online dura três segundos. Quanto mais rápido o ciclo entre apostar e saber, mais vezes o cérebro passa por aquele loop de expectativa, e mais forte fica o condicionamento.

Isso também tem nome na literatura: velocidade de jogo, ou event frequency. Mark Griffiths descreveu isso já nos anos 1990 como uma das características estruturais que mais determinam o potencial de vício de um jogo. Um caça-níquel permite centenas de rodadas por hora. Nenhuma aposta esportiva chega perto disso.

Junte a isso a disponibilidade total (o cassino está no bolso, vinte e quatro horas por dia), a possibilidade de apostar valores pequenos (o que engana a percepção de risco) e o desenho visual pensado para prender atenção, e fica fácil entender por que os casos mais graves que chegam ao consultório quase nunca são de aposta esportiva. São de tigrinho, Aviator, roleta. Jogos que, no fundo, são caça-níqueis com roupa nova.

O que isso muda na prática, para quem aposta e para a família

Quando a pessoa entende que o problema não é falta de força de vontade, e sim um circuito que foi treinado por milhares de repetições, a vergonha diminui. E é justamente a vergonha o que mais impede de pedir ajuda. A maioria dos meus pacientes com transtorno do jogo chegou ao consultório anos depois do início do problema, e quase sempre trazidos por alguém. Sozinha, a pessoa demora, porque acha que deveria dar conta.

Isso também ajuda a família a entender por que o sujeito “promete e não cumpre”. A promessa é até sincera. O circuito é que não obedece à promessa. Saber disso não significa aceitar tudo nem deixar de cobrar, mas muda o tom da cobrança, e muda o que faz sentido pedir. Pedir que a pessoa “tenha força” não adianta. Pedir que ela entregue o cartão, que deixe alguém de confiança cuidar das finanças por um tempo, que instale bloqueadores, isso adianta, porque tira o estímulo do alcance enquanto o circuito não se destreina.

Vício em apostas tem tratamento: circuito treinado se destreina

A boa notícia: o mesmo cérebro que aprendeu a apostar consegue desaprender. O que foi condicionado pode ser extinto, para usar o termo técnico, e o que os estudos mostram é que isso acontece de fato. Leva tempo, claro. Precisa de distância do jogo, porque cada rodada é uma repetição a mais do treino. E, quase sempre, precisa de ajuda profissional, porque a pessoa sozinha não enxerga o próprio circuito funcionando.

A terapia cognitivo-comportamental é o tratamento com melhor evidência para o transtorno do jogo. Ela trabalha exatamente nos pontos que descrevi aqui: as distorções sobre o quase-acerto, a ilusão de recuperar o prejuízo, os gatilhos que disparam a vontade. Medicação pode ajudar em alguns casos, principalmente quando existe depressão, ansiedade ou outra dependência junto, o que é comum. E o envolvimento da família melhora o resultado.

O bloqueio das bets tira o estímulo do alcance, e isso ajuda, não vou negar. Mas o circuito continua lá, esperando o próximo estímulo, que pode ser um site clandestino, um grupo de WhatsApp, uma rifa. Se você ou alguém próximo se reconheceu neste texto, esse é um bom momento para conversar com alguém. É perfeitamente possível sair dessa. Eu vejo acontecer.

A Psiquiatria da Clínica Trianon, na Av. Paulista, em São Paulo, atende transtorno do jogo e outras dependências, como o transtorno por uso de álcool, junto com a equipe de psicologia. Conheça a página do Dr. Daniel Cavalcante na equipe e o blog do site pessoal do Dr. Daniel.

Tratamento para vício em apostas na Clínica Trianon

Avaliação psiquiátrica e terapia cognitivo-comportamental, com sigilo e orientação para a família.

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Perguntas frequentes sobre vício em apostas

Vício em apostas é doença?

Sim. O transtorno do jogo é um diagnóstico psiquiátrico. Desde 2013, no DSM-5, ele está no mesmo capítulo das dependências de álcool e drogas, porque apostar ativa os mesmos circuitos de recompensa e produz a mesma perda de controle.

Por que é tão difícil parar de apostar?

Porque o jogo treina o sistema de recompensa do cérebro. O ganho imprevisível (reforço intermitente), a dopamina liberada na expectativa do resultado, o quase-acerto e a vontade de recuperar o prejuízo mantêm a pessoa apostando mesmo quando ela perde quase sempre.

O bloqueio das bets resolve o vício?

Ajuda, porque tira o estímulo do alcance, mas não trata o vício. O circuito continua treinado e pode ser acionado por sites clandestinos, grupos de WhatsApp ou rifas. Quem já tem o problema precisa de tratamento.

Como a família pode ajudar quem tem vício em apostas?

Pedir que a pessoa tenha força não adianta. Adianta tirar o estímulo do alcance: entregar o cartão, deixar alguém de confiança cuidar das finanças por um tempo e instalar bloqueadores, enquanto a pessoa busca tratamento. O envolvimento da família melhora o resultado.

Qual é o tratamento para vício em apostas?

A terapia cognitivo-comportamental é o tratamento com melhor evidência. Ela trabalha as distorções sobre o quase-acerto, a ilusão de recuperar o prejuízo e os gatilhos da vontade. Medicação pode ajudar quando há depressão, ansiedade ou outra dependência associada.

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Referências

Texto de Dr. Daniel Cavalcante, médico psiquiatra, CRM-SP: 165836 / RQE: 67756, sócio-diretor da Clínica Trianon.

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