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Venvanse (lisdexanfetamina), TDAH e direção: o que o novo drogômetro do CONTRAN muda

Venvanse (lisdexanfetamina), TDAH e direção: o que o novo drogômetro do CONTRAN muda

Dra. Renata Carvalho

Médica Psiquiatra

CRM-SP: 165707 / RQE: 67553

Dra. Renata Carvalho, médica psiquiatra

Dr. Daniel Cavalcante

Médico Psiquiatra

CRM-SP: 165836 / RQE: 67756

Dr. Daniel Cavalcante, médico psiquiatra

Resposta rápida

O uso de Venvanse com prescrição médica não virou crime, e quem trata TDAH não está proibido de dirigir. A lisdexanfetamina é transformada pelo corpo em d-anfetamina, então um teste de fluido oral pode dar positivo para anfetamina mesmo com uso correto do medicamento.

Detectar uma substância não é o mesmo que provar alteração da capacidade de dirigir. Não suspenda o medicamento por conta própria: converse com o seu médico e mantenha a documentação do tratamento em dia.

A nova regulamentação do CONTRAN sobre testes para drogas no trânsito trouxe uma preocupação inesperada para pessoas que tratam TDAH com lisdexanfetamina, conhecida comercialmente por marcas como Venvanse. A preocupação tem fundamento, porque esse medicamento é transformado pelo organismo em d-anfetamina, e essa substância pode ser identificada em testes de fluido oral. Isso não significa que tomar Venvanse com indicação médica tenha virado crime ou que toda pessoa em tratamento esteja impedida de dirigir.

Como entender a nova regra sem transformar um tratamento prescrito em crime

A Resolução CONTRAN nº 1.031, de 17 de agosto de 2026, regulamentou o uso de aparelhos destinados à detecção de outras substâncias psicoativas durante a fiscalização de trânsito. Esses equipamentos ficaram conhecidos popularmente como drogômetros. A ideia parece simples. O motorista fornece uma amostra, geralmente de fluido oral, e o aparelho pesquisa a presença de determinadas substâncias. O problema está no significado que pode ser dado ao resultado.

A resolução estabelece que o aparelho destinado a esse tipo de teste precisa ser certificado dentro do Sistema Brasileiro de Avaliação da Conformidade por organismo acreditado pelo Inmetro. Ela também prevê um resultado qualitativo. Na prática, o aparelho informa que determinada substância foi detectada ou não foi detectada conforme os critérios daquele teste. Ele não fornece uma medida direta de quanto aquela pessoa está prejudicada para dirigir. Essa diferença parece pequena, mas é fundamental.

O artigo 8º da nova resolução inclui o resultado qualitativo positivo entre as formas de caracterização da infração administrativa relacionada ao uso de substâncias psicoativas. O artigo 9º também inclui esse resultado entre os procedimentos relacionados à caracterização do crime previsto no artigo 306 do Código de Trânsito Brasileiro.

Esse ponto merece atenção porque o próprio Código de Trânsito Brasileiro fala em dirigir com a capacidade psicomotora alterada em razão da influência de álcool ou de outra substância psicoativa. Presença de uma molécula e alteração da capacidade para dirigir não são exatamente a mesma coisa. O próprio Ministério dos Transportes destacou, ao explicar a nova regulamentação, a importância da avaliação da alteração da capacidade psicomotora.

Isso cria uma questão que ainda deverá passar por protocolos operacionais, interpretações jurídicas e possíveis normas complementares. Por isso, uma afirmação como “quem toma Venvanse agora está cometendo crime ao dirigir” não é correta.

O uso terapêutico de lisdexanfetamina com acompanhamento médico não virou crime. Também não significa que existe hoje um drogômetro em cada blitz. A implementação tende a ser progressiva. A Polícia Rodoviária Federal informou em agosto de 2026 que ainda não possui drogômetros em sua frota operacional contínua e que a nova regulamentação abre caminho para futuras aquisições e treinamento das equipes. Segundo informação divulgada pelo Inmetro à imprensa em agosto de 2026, havia naquele momento apenas um modelo de equipamento certificado para esse uso no Brasil.

Portanto, existe uma mudança real. Também existe muito espaço entre a publicação da norma e o modo como essa fiscalização funcionará no dia a dia.

Como interpretar um teste positivo sem confundir anfetamina com incapacidade para dirigir

A principal questão para quem usa lisdexanfetamina está na forma como o medicamento funciona no organismo. A lisdexanfetamina é um pró-fármaco. Isso significa que o organismo precisa transformá-la para produzir seu efeito. Depois que a pessoa toma o medicamento, parte dele é convertida em d-anfetamina. Essa d-anfetamina é responsável por boa parte do efeito terapêutico do tratamento. Ela também pode ser encontrada no fluido oral.

Estudos realizados com administração controlada de lisdexanfetamina demonstraram a presença de d-anfetamina em amostras de saliva após o uso do medicamento. Por isso, uma pessoa que utiliza lisdexanfetamina corretamente pode apresentar um teste positivo para anfetamina, dependendo do aparelho utilizado, do ponto de corte do teste e do intervalo entre o uso da medicação e a coleta.

Nesse caso, não estamos necessariamente falando de um falso positivo. O teste pode estar realmente encontrando anfetamina. A origem dessa anfetamina é que pode ser um tratamento médico legítimo.

Essa é a parte que costuma causar confusão. Um aparelho identifica uma molécula. Ele não faz uma consulta médica. Ele não sabe se aquela substância veio de uma medicação prescrita ou de outro contexto. Ele também não sabe se aquela pessoa tem TDAH. Ele não sabe qual dose foi utilizada. Ele não avalia impulsividade. Ele não mede atenção. Ele não mede julgamento. Ele não calcula tempo de reação. Ele não determina sozinho o grau de capacidade daquela pessoa para dirigir.

Esse ponto é especialmente importante no TDAH. O próprio TDAH sem tratamento adequado pode aumentar dificuldades relacionadas à direção por causa de sintomas como desatenção, distração e impulsividade. O tratamento adequado pode fazer justamente o contrário.

Estudos com adultos jovens com TDAH demonstraram melhora de alguns parâmetros de direção durante o tratamento com lisdexanfetamina. Em um estudo controlado com simulador de direção, participantes tratados com lisdexanfetamina apresentaram tempos de reação melhores e menos colisões simuladas do que aqueles que receberam placebo. Isso não significa que o medicamento deixa qualquer pessoa automaticamente segura para dirigir. A avaliação continua sendo individual.

Uma pessoa que apresenta tontura, alteração visual, agitação intensa, sonolência, insônia importante ou qualquer outro efeito capaz de prejudicar seu funcionamento precisa conversar com o médico antes de dirigir.

O ponto central continua sendo o mesmo: detectar anfetamina não é a mesma coisa que demonstrar incapacidade para dirigir.

Da mesma forma, um medicamento não aparecer em determinado painel de drogas não significa automaticamente que ele seja seguro ao volante. Alguns medicamentos podem causar sedação ou prejuízo cognitivo mesmo sem serem pesquisados pelo aparelho. O drogômetro faz uma análise toxicológica. Ele não substitui uma avaliação clínica.

Como manter o tratamento e a documentação em dia sem interromper o medicamento por conta própria

A primeira orientação para quem trata TDAH com lisdexanfetamina é simples. Não suspenda o medicamento apenas por medo do drogômetro. Não reduza a dose por conta própria. Não troque de medicamento somente para tentar evitar uma possível detecção. A escolha do tratamento para TDAH precisa continuar sendo feita com base em eficácia, efeitos adversos, duração do efeito, rotina da pessoa, condições clínicas associadas e resposta individual.

Trocar um tratamento que funciona apenas para tentar contornar um teste toxicológico pode inverter a lógica do cuidado. Em alguns pacientes, piorar o controle do TDAH pode inclusive trazer novos problemas para a direção.

A segunda medida é manter a documentação médica organizada. Para pessoas que dirigem e utilizam regularmente uma medicação que pode resultar em detecção de anfetamina, pode ser razoável ter um relatório médico atualizado. Esse relatório pode registrar o diagnóstico, a indicação clínica, o nome genérico da medicação, a dose prescrita, o período de tratamento e a regularidade do acompanhamento.

Quando isso tiver sido efetivamente avaliado pelo médico, o documento também pode registrar a presença ou a ausência de efeitos adversos capazes de comprometer atenção, alerta ou funcionamento psicomotor.

Mas existe um cuidado fundamental: o relatório médico não é um salvo-conduto. A Resolução CONTRAN nº 1.031 de 2026 não criou um documento médico que automaticamente transforme um resultado positivo em resultado negativo. Também não existe na resolução uma regra que diga que apresentar uma receita médica impede qualquer consequência administrativa ou jurídica.

O relatório serve para algo diferente. Ele documenta que existe um tratamento legítimo. Ele ajuda a contextualizar a origem da substância encontrada. Ele registra informações médicas importantes que podem ser relevantes caso exista uma situação de fiscalização.

O relatório também precisa ser tecnicamente correto. Não é adequado declarar de forma genérica que uma pessoa está “liberada para dirigir” quando essa avaliação não foi realmente feita. Medicina exige contexto. A direção também exige contexto. O objetivo da documentação é explicar a realidade clínica, e não criar uma garantia que a legislação atual não oferece.

Perguntas frequentes sobre Venvanse, TDAH e direção

O Venvanse aparece no drogômetro?

A lisdexanfetamina pode levar à presença de d-anfetamina no fluido oral. Por isso, existe possibilidade real de detecção de anfetamina em uma pessoa que utiliza o medicamento de forma correta. O resultado depende das características do equipamento, do ponto de corte e do momento da coleta.

Um teste positivo significa que a pessoa estava intoxicada?

Não. Um teste qualitativo detecta a presença de determinada substância conforme os critérios do método utilizado. Ele não mede sozinho o grau de alteração psicomotora daquela pessoa.

Quem toma Venvanse não pode mais dirigir?

Essa conclusão não está correta. O tratamento prescrito com lisdexanfetamina não foi proibido para motoristas.

A capacidade para dirigir precisa ser analisada de acordo com o quadro clínico, os sintomas, a resposta ao tratamento e os possíveis efeitos adversos apresentados por cada pessoa.

O tratamento do TDAH pode melhorar a direção?

Em alguns pacientes, sim. O TDAH pode afetar atenção, impulsividade e tomada de decisão. Estudos mostram que o tratamento adequado com estimulantes pode melhorar alguns parâmetros relacionados à direção em pessoas com TDAH. O benefício não elimina a necessidade de avaliação individual.

A receita médica impede uma autuação?

A resolução atual não estabelece essa garantia. A receita e o relatório médico são documentos relevantes para demonstrar que existe uma indicação terapêutica legítima. Eles não funcionam como uma autorização automática diante de um teste positivo.

É melhor parar o Venvanse antes de dirigir?

Essa não deve ser uma decisão tomada por conta própria. A interrupção do medicamento pode levar ao retorno de sintomas do TDAH e piorar o funcionamento de algumas pessoas. Qualquer ajuste precisa ser discutido com o médico responsável pelo tratamento.

O que fazer a partir de agora

A nova regulamentação merece atenção, mas não exige pânico. Quem trata TDAH com lisdexanfetamina precisa principalmente de acompanhamento adequado, informação atualizada e documentação coerente com o tratamento. A melhor decisão continua sendo tratar o TDAH de forma individualizada e acompanhar como essa regulamentação será aplicada na prática.

Na Clínica Trianon, o tratamento do TDAH considera muito mais do que o nome de um medicamento. A avaliação envolve sintomas, rotina, sono, trabalho, relacionamentos, segurança, efeitos adversos e impacto real do tratamento na vida de cada pessoa. Informação adequada permite continuar o tratamento com responsabilidade, sem decisões precipitadas e sem transformar um resultado de laboratório em uma conclusão sobre toda a pessoa.

Atualização: este texto foi publicado em 25 de agosto de 2026, poucos dias depois da publicação da Resolução CONTRAN nº 1.031 de 2026. Como a regulamentação é recente, procedimentos de fiscalização, orientações dos órgãos responsáveis e interpretações jurídicas ainda podem mudar.

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Se você trata TDAH e ficou em dúvida sobre o que essa mudança significa para a sua rotina, a equipe de Psiquiatria da Clínica Trianon, na Av. Paulista, em São Paulo, pode avaliar o seu caso e organizar a documentação adequada ao seu tratamento.

Referências

  1. Conselho Nacional de Trânsito. Resolução CONTRAN nº 1.031, de 17 de agosto de 2026.
  2. Ministério dos Transportes. Contran atualiza regras da Lei Seca e procedimentos de fiscalização. Publicado em 18 de agosto de 2026.
  3. Polícia Rodoviária Federal. Nova resolução do Contran consolida práticas da PRF na Lei Seca e abre caminho para uso futuro de drogômetros. Publicado em agosto de 2026.
  4. Comiran E, Carlos G, Barreto F, Pechansky F, Fröehlich PE, Limberger RP. Lisdexamfetamine and amphetamine pharmacokinetics in oral fluid, plasma, and urine after controlled oral administration of lisdexamfetamine. Biopharmaceutics and Drug Disposition. 2021.
  5. Biederman J, Fried R, Hammerness P, et al. The effects of lisdexamfetamine dimesylate on the driving performance of young adults with ADHD. Journal of Psychiatric Research. 2012.

Autores: Dra. Renata Carvalho, Médica Psiquiatra, CRM-SP: 165707 / RQE: 67553, e Dr. Daniel Cavalcante, Médico Psiquiatra, CRM-SP: 165836 / RQE: 67756.

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