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Magreza extrema e saúde mental: 5 reflexões sobre padrões de beleza femininos

Magreza extrema e saúde mental: 5 reflexões sobre padrões de beleza femininos

Daniela Filippo

Psicóloga

CRP-SP: 06/227047

Dra. Daniela Filippo

A relação entre magreza extrema e saúde mental está no centro de conversas cada vez mais urgentes. Basta um olhar para as redes sociais para perceber: um certo tipo de corpo voltou a ser celebrado. O mais magro possível. Sem curvas acentuadas, sem gordura visível, quase etéreo.

E isso não é novo. É cíclico.

Como psicóloga, acompanho o impacto silencioso que esses padrões têm na forma como as mulheres se enxergam. E acredito que entender de onde vem essa pressão é o primeiro passo para criar uma relação mais gentil com o próprio corpo.

Padrões de beleza femininos: uma história que se repete

Para compreender a pressão estética que recai sobre o corpo feminino hoje, precisamos recuar no tempo e olhar para o que cada época exigia das mulheres.

O “corpo ideal” nunca foi algo natural ou neutro. Ele sempre refletiu o que a sociedade esperava da mulher. E, em muitos casos, o quanto ela deveria (ou não) ocupar espaço no mundo.

Na Europa medieval, corpos arredondados eram símbolo de saúde e fertilidade. A magreza era associada à pobreza e à fragilidade. Com o advento do espartilho, no século XVI, a cintura passou a ser comprimida ao máximo — não por escolha, mas por obrigação social. O corpo feminino foi literalmente moldado para corresponder a um ideal que não era o seu.

No início do século XX, os anos 1920 trouxeram a figura da mulher moderna, esguia e andrógina. Os anos 50 celebraram as curvas. Os anos 90 trouxeram de volta a magreza extrema como símbolo de sofisticação. Os anos 2000 tiveram sua própria obsessão. E hoje, novamente, vemos celebridades sendo aplaudidas por corpos cada vez mais finos, apresentados como expressão de disciplina e sucesso.

O padrão muda, mas a pressão nunca desaparece.

Magreza extrema e saúde mental: 5 reflexões importantes

1. Magreza extrema não é sinônimo de saúde

Por muito tempo (e ainda hoje) a magreza foi equacionada com disciplina, saúde e valor pessoal. Essa é uma distorção profunda e culturalmente construída.

Do ponto de vista psicológico, a busca por um corpo cada vez mais magro pode esconder sofrimentos reais: ansiedade, necessidade de controle, transtornos alimentares, baixa autoestima ou dificuldade de lidar com emoções de outras formas. O que aparece nas imagens como “corpo ideal” frequentemente não é saudável e, em muitos casos, é resultado de privação, dietas extremas e sofrimento silencioso.

2. A autopercepção é moldada pelo olhar externo

Nós não nos vemos de forma neutra. A percepção que temos do nosso próprio corpo é construída a partir do que aprendemos a valorizar, e isso começa muito cedo.

Meninas crescem ouvindo comentários sobre o corpo das outras mulheres. Crescem vendo imagens retocadas apresentadas como realidade. O “espelho interno” vai sendo calibrado por esses estímulos externos, e muitas vezes essa calibração produz uma imagem distorcida, que não corresponde ao que realmente existe.

Quando uma mulher se olha e só consegue enxergar os próprios “defeitos”, mesmo quando as pessoas ao redor veem algo completamente diferente, isso não é frescura nem vaidade. É um sinal de alerta que merece atenção.

3. A pressão sobre o corpo feminino tem raízes históricas e políticas

Não é exagero dizer que o corpo da mulher sempre foi um campo de disputas sociais.

Pesquisadoras da história do feminino mostram como as exigências sobre a aparência física estão ligadas ao papel que a mulher deveria ocupar na sociedade. Um corpo controlado, “adequado”, dentro dos padrões era (e ainda é) uma forma de comunicar conformidade e pertencimento.

Quando as mulheres conquistaram mais autonomia, espaço público e voz, as exigências estéticas não diminuíram. Em muitos casos, tornaram-se mais rígidas. Como se houvesse uma necessidade de compensar a liberdade conquistada com algum tipo de limitação visível.

A magreza extrema e saúde mental se conectam aqui de forma sutil, mas poderosa: em um mundo que cobra da mulher que ela seja ao mesmo tempo forte e discreta, ocupar o mínimo de espaço físico possível pode parecer, inconscientemente, uma forma de sobrevivência social.

4. As redes sociais amplificam o que sempre existiu

As redes sociais não criaram a pressão estética, mas a tornaram constante e inevitável.

Antes, para se deparar com imagens de corpos “ideais”, era preciso abrir uma revista ou ligar a televisão. Hoje, esses conteúdos aparecem no feed a qualquer hora, sem convite. Os algoritmos aprendem o que nos prende e entregam mais do mesmo. A comparação, antes episódica, se torna contínua e automática.

Estudos em psicologia mostram que quanto maior a exposição a imagens de magreza como ideal estético, maior a insatisfação corporal, independentemente do peso real da pessoa. Isso é especialmente relevante para adolescentes e jovens adultas, que ainda estão construindo sua identidade e são mais vulneráveis a esses estímulos.

5. Falar sobre isso é parte do cuidado

Ainda existe muito tabu em torno da insatisfação corporal. Muitas mulheres carregam esse sofrimento em silêncio, achando que é “coisa pequena”, quando, na verdade, é uma questão de saúde mental legítima e merecedora de acolhimento.

Reconhecer que o padrão que nos foi imposto é historicamente construído, politicamente motivado e humanamente impossível não resolve tudo de imediato. Mas cria um espaço de respiração. Uma brecha para começar a olhar para si mesma com mais compaixão.

A psicologia não se propõe a ditar como o corpo deve ser. Ela se propõe a acompanhar o sofrimento de quem não se sente suficiente, e a ajudar a construir uma relação mais honesta e gentil consigo mesma.

Magreza extrema e saúde mental: quando buscar ajuda?

Quando a relação com o próprio corpo passa a ocupar um espaço grande demais na mente gerando angústia diária, comparações constantes, evitação de situações sociais ou rituais em torno da alimentação e da imagem, é um sinal de que vale conversar com alguém.

Não é preciso ter um diagnóstico para buscar cuidado. O sofrimento, por si só, já é suficiente.

A Clínica Trianon conta com uma equipe especializada em saúde mental e outras especialidades, pronta para oferecer escuta qualificada, sem julgamentos e com a profundidade clínica que cada história merece.

Referências:

GRABE, Shelly; WARD, L. Monique; HYDE, Janet Shibley. The role of the media in body image concerns among women: a meta-analysis of experimental and correlational studies. Psychological Bulletin, v. 134, n. 3, p. 460-476, 2008. DOI: 10.1037/0033-2909.134.3.460.

FARDOULY, Jasmine; DIEDRICHS, Phillippa C.; VARTANIAN, Lenny R.; HALLIWELL, Emma. Social comparisons on social media: the impact of Facebook on young women’s body image concerns and mood. Body Image, v. 13, p. 38-45, 2015. DOI: 10.1016/j.bodyim.2014.12.002.

Programa Trianon de Cuidado Integral no Emagrecimento

Endocrinologista, nutricionista, psicóloga especializada em comportamento e encontros em grupo, integrados em um único cuidado de 3 meses. Saúde mental como pilar central e vagas limitadas.

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