Saúde mental: e se tudo pudesse mudar antes de piorar?
Dra. Renata Carvalho
Médica psiquiatra
CRM-SP: 165707 / RQE: 67553
A saúde mental é um dos pilares mais importantes da vida humana — especialmente na adolescência, fase em que tudo muda rapidamente e onde os primeiros sinais de sofrimento emocional costumam aparecer. Ainda assim, esse tema continua sendo silenciado, subestimado ou confundido com “drama”, “fase”, “falta de força” ou “preguiça”. E é justamente nesse silêncio que tantas vidas começam a desmoronar sem que ninguém perceba.
Imagine uma adolescente de 16 anos. Ela passa horas no quarto, evita os amigos, perdeu o interesse por tudo que antes amava. Os pais pensam que é “coisa da idade”. Os professores dizem que ela “tem potencial, mas está desmotivada”. A escola começa a acumular faltas, o sono se desregula, surgem as primeiras marcas no corpo — sinais de autolesão.
Mas ainda assim, ninguém fala sobre saúde mental.
Vivemos em uma sociedade onde o sofrimento psíquico ainda é silenciado, especialmente entre os jovens. Espera-se que eles apenas “superem”. Que sejam fortes. Que amadureçam sozinhos. Mas a verdade é que muitos estão à beira de um colapso emocional — e ninguém percebe até que seja tarde.
É por isso que precisamos falar sobre o momento certo de buscar ajuda. Porque quanto mais cedo o cuidado chega, maiores são as chances de transformação.
Histórias como a da Ana nos mostram que transtornos mentais não são o fim da linha. Às vezes, são apenas o começo de uma nova história.
A Ana chegou até mim aos 16 anos, após uma longa trajetória de sofrimento silencioso. Na época, ela apresentava traços de transtorno de personalidade borderline, estava com um tratamento inadequado, sofria rejeições sociais, automutilação e uma autoestima completamente fragmentada. Ela ouvia que “era pesada demais”, “trazia uma energia ruim”. Aos 15 anos, chegou a ser internada. Seus vínculos estavam quebrados, a fé em si mesma também.
Mas ainda assim, ela veio.
E isso foi tudo o que ela precisava para começar.
O que muda o destino? O tratamento certo, na hora certa.
O que aconteceu depois não foi milagre. Foi ciência, vínculo e persistência. Com o tratamento adequado — psiquiatria especializada e terapia baseada em evidências — Ana reconstruiu sua vida.
Ela passou no vestibular.
Ela fez faculdade.
Ela parou de se cortar.
Ela construiu um relacionamento afetivo saudável.
Ela largou o cigarro.
Ela aprendeu a se ver com outros olhos.
E agora, aos 22 anos, ela é oficialmente uma advogada. Uma mulher que soube se responsabilizar por sua saúde mental, entender seus gatilhos, desenvolver percepção de si e fazer escolhas conscientes.
O tratamento não foi sobre apagar o passado. Foi sobre ressignificar. Despersonalizar o trauma e personalizar uma nova identidade. Ana deixou de ser refém da dor e passou a ser autora da própria história.
Por que ainda temos vergonha de falar sobre saúde mental, mesmo vivendo em uma sociedade adoecida?
Apesar dos avanços, ainda é comum que pessoas escondam seus sintomas por medo do julgamento. O tabu ainda pesa: medo de parecer fraco, de ser rejeitado, de ser rotulado.
Quantos “Anas” ainda estão sofrendo em silêncio?
Quantos adolescentes, jovens e adultos ouvem todos os dias que “é só uma fase”, que “tem que se esforçar mais”, enquanto enfrentam batalhas internas solitárias e exaustivas?
Negar o adoecimento mental não faz com que ele desapareça.
Só o transforma em sofrimento crônico e invisível.
Cuidar da mente é cuidar do destino
Cuidar da saúde mental não é um luxo. É uma urgência. Porque quando o tratamento é certo e chega na hora certa, ele não só muda vidas. Ele salva.
E você, vai continuar fingindo que está tudo bem… ou vai dar o primeiro passo?